“A história tinha que continuar. Alguém precisava contar. Ele não tinha condições de saber o que aconteceu naquele quarto enquanto ele dormia, então eu quem irei contar agora pra você. Eu. Ou como você está acostumado a me conhecer, “Ela”.
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- Mãe?- meu filho entrou no quarto “dele” (o nosso protagonista) - Posso entrar?
- Claro filho, pode vir. - eu estava sentada próximo a cama dele. Passei algum tempo ali, alguns dias já, na verdade.
- Estranho ver você em um quarto de hospital não como a médica, mas como a visita de um paciente.
- Inusitado, não?
- Como ele está?
- Mal… você pode imaginar. Mas se conheço bem a situação, ele irá melhorar. Irá até acordar em breve.
- Isso até que é bom.
- É… é sim.
- Pode me contar o que aconteceu entre vocês?
- Acho que precisa saber…
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” Antes de conhecê-lo eu namorava seu pai. Eramos jovens, e eu achava que o amava, de verdade. Mas ai esse homem apareceu. Tinha um jeito diferente de todos. Era engraçado, mas ao mesmo tempo tinha seriedade nas piadas. Era infantil, mas se portava com muita maturidade em situações difíceis. Exceto quando se tratava de amor. Sempre foi inseguro e temia muito. No começo aqui me encantou e eu terminei com seu pai.
Ficamos muito tempo juntos, namoramos. Eu finalmente descobri o que era amar, o verdadeiro amar. Mas aquela insegurança dele não o deixava ver os problemas que tínhamos. Eu precisava de consolo em um momento difícil e ele não pareceu se importar. Mas apenas pareceu. Agi errado ao terminar com ele e voltar com seu pai, admito. Mas não me arrependo. Tive você, tenho minha neta, e tenho saudades dele. Mas nunca o amei quanto esse homem aqui deitado.
Eu procurei ele enquanto apenas era namorada do seu pai depois. Descobri que ele havia sido preso. Acusado de desvio de verbas da empresa em que trabalhava como jornalista, um escândalo que envolveu política, poder e dinheiro, muito dinheiro. Ficou alguns bons anos na cadeia, e imagino o inferno que tenha sido pra ele. Anos depois descobriram que quem havia participado do esquema eram pessoas mais de cima, e ele foi solto. Saiu em jornais e tudo mais. Mas quando ele saiu, eu já tinha você, era um bebê, e eu te amava. E quando ele voltou a ser jornalista, estava muito diferente. A cadeia matou aquele homem que eu amei.
Mas então agora ele aparece, ainda com o cadáver vivo que você conheceu, mas ainda tinha resquícios daquele homem frágil, sensível e amável. Ele é a prova que tristeza e decepção pode acabar com a personalidade de qualquer pessoa.
Acho que não deveria dizer isso a você, mas mentir seria ainda pior. Eu ainda amo esse homem. Na verdade, sempre o amei. Mas tenho peso na consciência de saber que muita culpa de ele estar nessa situação é minha. Mas agora vejo, que como ele disse, não é tarde para termos outra chance. Porém temo que ele possa não sair dessa situação para me dar essa chance.”
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Meu filho me abraçou, enquanto eu chorava. Ele havia entendido. Viu que eu ainda amava aquele homem e que meu futuro que ainda restava era envelhecer ao lado dele, embora ele aparentasse ser uns 5 anos mais velhos (sendo que eu era 3 anos mais velha que ele). Ele me disse ao ouvido que onde quer que estivesse, o pai dele iria querer me ver sorrindo, e que se fosse com outro homem, que fosse alguém que ele conhecia e sabia que me amava. Naquele momento, alguns alunos dele entraram no quarto, para uma visita àquele que eles diziam ser seu professor favorito e um dos melhores que já tiveram. Eles não sabiam quem eu era, mas se surpreenderam quando beijei a boca daquele senhor em coma induzido enquanto derramava lágrimas. Juro que pude sentir um sorriso dele, como se soubesse e percebera tudo que passou-se ali. Mas se isso aconteceu, foi no interior de nossos corações. Algo me dizia que tudo ia ficar bem.
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Saí do quarto, deixando os perplexos alunos junto ao seu professor. Eu sabia que ele iria acordar em breve. Eu sentia isso. Afinal, ele precisa voltar a contar essa história a você, porque ninguém faz isso melhor do que ele.”
A perspectiva dela sobre uma vida ruim, Pt. 8
Notas