“Aquilo me deixou abalado, e me julgue como quiser, pode até dizer que agi errado, mas eu precisava me encontrar com ela e descobrir o que estava acontecendo. Ela mentiu pra mim, ela mesmo admitiu, mas por que cargas d’água ela faria isso? Bom, deixei passar dois dias pra minha cabeça esfriar, incrivelmente sóbrio, e fui ao hospital. Lá me disseram que ela havia mudado de local de trabalho. Fiquei apavorado de início, e tentei descobrir o endereço dela. Só me passaram porque disse que era paciente dela e precisava do acompanhamento. Devido minha ficha naquele local, não foi difícil que acreditassem. Lá estava eu então, batendo na porta do que seria a casa dela. Era grande, bela por fora, com cantos arredondados que eu jamais me arriscaria a fazer, muito complicado essas coisas. Na faixada um jardim com flores diversas e um caminho de pedra por entre as gramas que levava até uma porta que se abriu. Um homem, entre 30 ou 35 anos que me atendeu.
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- Olá, posso ajudar? - disse ele.
- Sua… mãe - disse na dúvida - está? Digo… a dona desta casa.
- Quem é você? - ele parecia intrigado, um pouco mais sério agora do que quando abriu a porta.
- Um paciente dela, preciso falar com ela.
- Você é aquele cara, não é? Você é quem apareceu e fez a cabeça dela girar e agora querer se mudar? O que mais quer de minha mãe? Acho melhor ir embora!
- Sua filha, como está? Está melhor?
- Ora, seu… Saia logo daqui antes que…
- Deixe disso, pode deixar que eu falo com ele. - ela então interrompeu aquela discussão.
- Ah, ai está você. Preciso falar com você.
- Tudo bem, entre. Filho, deixe-nos a sós em meu escritório.
- Tem certeza?
- Sim, vai ficar tudo bem.
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Ela então me levou até o que me pareceu mais um consultório particular. Havia alguns livros, todos de medicina, uma mesa num canto, próximo a tais livros, e no outro uma maca, típicas daquelas que há em consultórios nos hospitais. Ela sentou em uma pequena poltrona e fez sinal para que eu me sentasse na outra poltrona próxima à dela que formava o par de móveis. Ela quem quebrou o silêncio, de novo.
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- Seja breve, não prolongue mais essa conversa que não deveria nem acontecer.
- Prolongar? Mais? Depois de 35 anos não tem mais o que prolongar.
- Diga logo, sem ironia!
- Tá certo, não tem pra que criar lombadas se eu vou falar isso de qualquer jeito. Se quer saber…
- Não quero.
- … Como ia dizer, se que saber o que tenho pra dizer, é bem simples. Eu te amo.
- E como isso de repente?
- Você mandou eu ser breve, cortei todos os rodeios.
- Você sabe que eu também te amei. Muito, talvez hoje eu ainda te ame, mas não deveria, e não vá mudar nada se amo ou amei, agora já é tarde!
- Não, não é! Até mesmo eu que era incapaz de sorrir ainda acredito! Sei que já estamos velhos, que perdemos tempo demais e que não podemos fazer muita coisa que poderíamos ter feito antes, mas ainda dá para juntarmos nossas vidas novamente e esperar que a velhice nos alcance e nos traga o fim desse ciclo que, na minha opinião, ainda não se fechou!
- Já não tem como…
- Mas você mesmo disse que ainda pode ser que me ame! Algo ainda diz que dá pra tentarmos!
- Eu tenho uma família, não posso abandonar.
- Eu sei que ficaria difícil se separar agora, mas…
- Eu não tenho marido.
- Mas então, seu filho…
- O pai dele morreu, há 23 anos.
- Eu não sabia. Eu conhecia?
- Não importa.
- Era ele não?
- Isso muda alguma coisa?
- Muda tudo! Ele sempre se aproveitou de sua fragilidade, não por mal, mas ele te tirou de mim em um momento de fraqueza nosso! Aproveitou-se que tinha se distanciado de mim e de sua instabilidade emocional naquela época pra poder fazer você terminar tudo comigo e nunca mais termos nossa chance! - já estava gritando nessa hora.
- Você acha que é o dono da verdade, não é? - ela gritava também. - Pois então, Sr. Sabe-Tudo, fique sabendo que ele me deu o que você não me deu: atenção!
- Atenção? E o amor que eu te dei durante todos os dias, durante todos os momentos que tivemos? Disso você esqueceu na primeira vez que ele disse “Relaxa, vai passar”? TÍPICO DELE!
- Como se atreve a dizer isso?
- Ele teve o fim que mereceu afinal! Não que eu quisesse que ele morresse, mas depois de ter me matado naquele dia, nada mais justo não!? - já ia me levantando para sair.
- Você… - algumas lágrimas surgiam, era uma mistura de tristeza, raiva… culpa.
- Quer saber, eu acho mesmo é que eu te odeio!
- Não me amava até agora, hipócrita?
- E qual é a diferença, afinal?
- SAIA DAQUI!
- Não precisa pedir duas vezes.
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Sai daquele consultório com a cara bufando de raiva, as lágrimas escorrendo e a vontade de morrer no peito. Bem, na verdade, eu quase consegui. Dali o que aconteceu depois você já deve imaginar me conhecendo. Fui pra casa, me afoguei em whisky e tequila. Enquanto queimava fotos e terminava duas garrafas eu tive algum surto dentro de mim, como se meu corpo entendesse minha vontade e tentasse acabar com aquela vida que não tinha sentido há anos. Apaguei. Graças à empregada fui para na cama de um hospital. Na verdade, graças à ela não, por culpa dela. Eu não sabia na hora, mas sentada ao lado da minha cama, estava ela, mesmo depois de ouvir tudo o que ouvira antes. Por que? Acho que culpa, arrependimento, mas o mais provável é que ela queria se certificar de que iria mesmo morrer.”
Uma perspectiva não tão ruim sobre uma vida ruim pt. 7

Notas

  1. thexuworld publicou esta postagem