“Como havia prometido a ela, na primeira tarde que estava fora do hospital fui busca-la no fim do expediente para termos um momento pra conversar. Depois que ela saiu do meu quarto não havia voltado. Seria então a primeira vez que veria ela depois de ter aceitado meu convite. Então parei o carro no estacionamento de frente com o hospital e fiquei esperando ela sair. Era uma noite de sexta feira, por volta das 19h e o sol já estava baixando, mas as luzes das ruas ainda não estavam acesas. Fiquei pensando primeiro em onde leva-la. Não tive nenhuma boa ideia, não conhecia muitos lugares que poderia leva-la sem me constranger por meus hábitos. Se é que você me entende. Então quando deu 19h20 as luzes da rua acenderam e ela saiu do hospital, toda arrumada e elegante, deduzi que tinha se aprontado lá dentro pois estava 50 min atrasada do seu fim de dia de trabalho.
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- Então por isso demorou, estava se arrumando. - puxei assunto.
- Que? Eu nem sabia que vinha… Não achei que estivesse falando sério.
- Claro, e por que ficou quase uma hora a mais lá dentro?
- … Emergência…
- Claro, chamaremos assim!
- Quanto sarcasmo pra uma pessoa só! Bem, como não sabia que viria não pensei em nenhum lugar pra ir. Pra onde vai me levar?
- Conheço um “pub” muito bom aqui perto - foi o primeiro lugar que pensei na hora.
- Pub?
- É, sabe como é, barzinho, estilo americano, música ao vivo… vai gostar, entra ai.
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Entramos no carro e fomos para o tal pub. Não trocamos muitas palavras no caminho. Ela apenas perguntou o nome do local e mais nada. Se bem que o caminho era curto e chegamos rápido, então sem muito tempo para conversas que nenhum dos dois sabiam como ter. Ao chegar escolhemos uma mesa na parte de dentro do salão e pedimos dois sucos, já que eu não podia beber.
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- Então - ela quebrou o silêncio - você já sabe o que faço da vida, mas não sei sobre o que tem feito.
- Virei professor.
- Era o que sempre quis não?
- Sim, mas até lá, fiz jornalismo, exerci a profissão por 15 anos enquanto me formava e fazia doutorado.
- Caramba, não foi só eu que mudei de rumo na vida.
- Não, não. Hoje leciono História na Federal.
- Se especializou em que?
- Revolução Industrial… História Britânica…
- Isso é muito manjado! - você tem que levar em consideração que o comentário dela veio cerca de 35 anos após o dia em que está lendo isso, afinal já deve ter percebido que estou lhe contando sobre o futuro, sobre uma perspectiva futura. - Ainda há o que se estudar sobre isso?
- Sempre há! O tempo é um vazio muito grande para nós que não estamos vivendo nele.
- Achei que Inglaterra e toda a modinha britânica tivesse passado.
- Os encantos dessa terra nunca se apaga.
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Continuei conversando com ela por um bom tempo. Foram algumas horas falando sobre besteiras de fato. Comentamos o que estava acontecendo no mundo, algumas noticias, filmes e um pouco sobre música. Quando a banda do pub começou a tocar um clássico. Tears in Heaven, do Eric Clapton. Muitas pessoas dançavam na pista do salão nesse momento.
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- Eu amo essa música! - disse ela, para a minha surpresa.
- Por que não a dançamos então? - foi algo que tomei muita coragem pra dizer, e o fiz tremendo!
- Sério? Acho que não conseguiria.
- Eu nem sei dançar também, além do que, tinha a impressão que deveríamos ter feito isso quando jovens.
- Eu não sei…
- Vamos, posso ter essa dança com você? - Já disse me levantando e estendendo a mão para que ela segurasse.
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Quando ela levantava para irmos à pista, o seu celular tocou. Ela fez uma expressão séria. “Sim… Não, pode falar… Quando?… Mas como ela tá?… Fica calmo, filho, eu tô indo pra sua casa agora”. Filho? Aquilo me pegou de surpresa e me fez tremer ainda mais e, como reação adversa, soltar a mão dela.
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- Desculpe, tenho que ir.
- Filho?
- Sim.
- Mas você disse que…
- Eu menti, me desculpe. Minha neta está passando mal e preciso ir.
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Ela saiu correndo e pegou um táxi na porta do salão. Me sentei sem saber o que pensar, enquanto a banda continuava a tocar e cantar. “Would you hold my hand, if I saw you in heaven?”
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- Você seguraria? - cochichei”
Uma perspectiva não tão ruim sobre uma vida ruim pt. 6
Notas