“Era numa tarde. “Isso dói, isso dói muito!”. Isso era tudo o que eu conseguia pensar naquele momento. Tudo estava doendo dentro de mim. Eu só lembro de estar em casa, notoriamente triste e, claro, bêbado. E então apaguei. Não sei como estava naquela maca dentro de um corredor de hospital. Era uma gritaria só. Não tava entendendo nada, exceto o fato de que o doente era eu. Mas que diabos eu tinha? Bom, quando finalmente entrei numa sala cheia de luzes fortes em meus olhos, pude reconhecer um rosto. E mal pude acreditar que ela estava ali, e seja lá o que eu tivesse, ela que poderia me salvar.
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Quando acordei, acredito eu que algumas horas, no máximo um dia, depois que eu cheguei, ela estava com uma prancheta, talvez com meus dados, problemas.
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- Pelo que vejo aqui, andou cuidando muito muito mal de sua saúde. - disse ela quando me viu acordando
- Puxa, se você não me falasse, não iria descobrir que venho fazendo coisas erradas. - respondi enquanto me levantava para sentar na cama.
- Conte-me o que teve pra vir para cá?
- Não lembro. Sei que depois que nos vimos, fui terminar de comprar o que eu tinha ido…
- Álcool? - ela me interrompeu
- Não, só…
- Jack Daniel’s não?
- Doze anos, clássico… enfim! Depois quando cheguei em casa comecei a beber como usualmente faço. Algumas horas depois estava tossindo e cuspindo meu fígado pela boca.
- Isso é ruim.
- Confesso que não foi uma das cenas mais agradáveis da minha vida. E você já sabe o que tenho? Cirrose mesmo?
- Esses exames ainda não ficaram prontos, mas acho que sim. Os outros que fiz já foram descartados.
- Eu tenho câncer?
- Não ainda.
- Diabetes?
- Não.
- AIDS?
- Mas que…
- Tenho?
- Não!
- Ufa. Então vamos. Médica hein? Não esperava. É bem diferente do que pretendia ser.
- Nem me fale. Muita coisa aconteceu, os rumos mudaram… Tive que tomar algumas decisões, nem todas eu me orgulho. Mas essa até que deu certo. Sou uma boa médica.
- Se estou vivo ainda, então é uma boa médica. Na verdade, com minha vida, não sei como não morri ainda.
- Sinceramente? Um pouco mais de um dia que eu te vejo, e eu também quero entender.
- Não fala assim, me comporto bem, só não tenho bons hábitos.
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Então alguém entrou e entregou uns papéis para ela. Ela leu, devolveu e pediu que fizessem cópias e registrassem. Deduzi que fossem os tais exames.
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- Então é cirrose?
- Não, não é. Seu fígado está de fato muito mal. Mas não é cirrose. Consequência da bebida, mas não é cirrose.
- Mas eu cuspi meu fígado!
- Aquilo não era fígado, seu dramático. Era resto do almoço. Você vomitou por causa da bebida. Coisa rara, não?
- Engraçadinha!
- Se você parar de beber, ao menos por um tempo, deve melhorar.
- Como se isso fosse possível!
- Tem que ser, ou algo pior acontecerá e eu não poderei ajudar.
- Preciso de outras coisas pra me ocuparem enquanto não bebo.
- Seja o que for, arrume logo.
- Bom, pra começar, que tal tomarmos um chá quando eu sair daqui.
- Eu odeio chás.
- Eu sei disso, por isso to chamando.
- Mas que…
- Já é a segunda vez que ia me responder assim. Um café, talvez?
- Posso pensar. Descase.
- Se negar, eu venho te atormentar até aceitar. Já sei onde te encontrar.
- Ah… que seja. Pode ser. Pelo seu tratamento. Quem sabe assim não toma jeito.
- Okay, te encontro na primeira noite que sair daqui!
- Certo. Descanse, vou indo agora. Mais tarde enfermeiras passaram se precisar de cuidados.
- … Hey!
- Mais alguma coisa?
- Eu não tenho AIDS mesmo?
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Ela riu e saiu.”
Uma perspectiva não tão ruim sobre uma vida ruim pt. 5

Notas

  1. thexuworld publicou esta postagem