“Vocês vão pensar que eu sou um alcoólatra. Mas estava saindo pra comprar mais algumas garrafas pois as minhas acabaram. Costumo frequentar o mesmo lugar de sempre, onde os preços são bons e eu conheço o dono. Mas dessa vez foi diferente. No caminho da loja eu encontrei um rosto conhecido. Tinha traços familiares, mas com tons envelhecidos, nada que reduzisse a beleza. Era ela. Não restava duvidas. Mas o nervosismo me impediu de falar com ela. Decidi baixar a cabeça, fingir que não a vi e passar direto. Mas então ela me chamou. Meu coração quase pulou pela boca, e fingi ter dificuldades para reconhecer… bobagem! Depois de um abraço e palavras previsíveis acabamos indo tomar um café perto dali.
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- Você começou a tomar café? - ela perguntou.
- Claro que não, sabe que eu odeio. Vou querer um chá mate com limão.
- Eu odeio chá.
- Eu sei.
- Quanto tempo, não? Já faz anos!
- Eu diria décadas. Quase 30 anos.
- Passou muito rápido o tempo.
- Eu não acho. Cada dia foi eterno.
- Por que?
- Tive meus motivos, e não me orgulho de todos. Filhos? - mudei de assunto.
- Não…
- Trabalha?
- Sim…
- Sua família?
- Como sempre…
- Casada?
- … E sobre você?
- Respostas negativas pra todas as perguntas que fiz.
- Você sempre foi muito sarcástico.
- Não que seja esse o defeito que você encontrou em mim.
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Não nos prendemos muito nesse assunto. Senti que nenhum dos dois gostaria das respostas. No fundo não queria que ela tivesse se casado, mas sei que ela estava casada, e provavelmente com ele. Eu comecei a lembrar da nossa época, onde tudo dava certo, nada era esquisito assim, e muito menos frio. Passou-se bem uma hora e ela disse que precisava ir. Paguei a conta enquanto ela juntava algumas sacolas que trazia com ela. Um aperto de mão frio selou o adeus. Senti como se não fosse mais a ver depois desse. No ultimo momento me virei e a chamei de volta, ela parou e se virou para olhar para mim.- E como você está? - questionei
”
- Indo.
- A gente não conseguiu fazer tudo ficar bem pra cada um né?
- É difícil sozinha, até algum dia.