“A história tinha que continuar. Alguém precisava contar. Ele não tinha condições de saber o que aconteceu naquele quarto enquanto ele dormia, então eu quem irei contar agora pra você. Eu. Ou como você está acostumado a me conhecer, “Ela”.
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- Mãe?- meu filho entrou no quarto “dele” (o nosso protagonista) - Posso entrar?
- Claro filho, pode vir. - eu estava sentada próximo a cama dele. Passei algum tempo ali, alguns dias já, na verdade.
- Estranho ver você em um quarto de hospital não como a médica, mas como a visita de um paciente.
- Inusitado, não?
- Como ele está?
- Mal… você pode imaginar. Mas se conheço bem a situação, ele irá melhorar. Irá até acordar em breve.
- Isso até que é bom.
- É… é sim.
- Pode me contar o que aconteceu entre vocês?
- Acho que precisa saber…
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” Antes de conhecê-lo eu namorava seu pai. Eramos jovens, e eu achava que o amava, de verdade. Mas ai esse homem apareceu. Tinha um jeito diferente de todos. Era engraçado, mas ao mesmo tempo tinha seriedade nas piadas. Era infantil, mas se portava com muita maturidade em situações difíceis. Exceto quando se tratava de amor. Sempre foi inseguro e temia muito. No começo aqui me encantou e eu terminei com seu pai.
Ficamos muito tempo juntos, namoramos. Eu finalmente descobri o que era amar, o verdadeiro amar. Mas aquela insegurança dele não o deixava ver os problemas que tínhamos. Eu precisava de consolo em um momento difícil e ele não pareceu se importar. Mas apenas pareceu. Agi errado ao terminar com ele e voltar com seu pai, admito. Mas não me arrependo. Tive você, tenho minha neta, e tenho saudades dele. Mas nunca o amei quanto esse homem aqui deitado.
Eu procurei ele enquanto apenas era namorada do seu pai depois. Descobri que ele havia sido preso. Acusado de desvio de verbas da empresa em que trabalhava como jornalista, um escândalo que envolveu política, poder e dinheiro, muito dinheiro. Ficou alguns bons anos na cadeia, e imagino o inferno que tenha sido pra ele. Anos depois descobriram que quem havia participado do esquema eram pessoas mais de cima, e ele foi solto. Saiu em jornais e tudo mais. Mas quando ele saiu, eu já tinha você, era um bebê, e eu te amava. E quando ele voltou a ser jornalista, estava muito diferente. A cadeia matou aquele homem que eu amei.
Mas então agora ele aparece, ainda com o cadáver vivo que você conheceu, mas ainda tinha resquícios daquele homem frágil, sensível e amável. Ele é a prova que tristeza e decepção pode acabar com a personalidade de qualquer pessoa.
Acho que não deveria dizer isso a você, mas mentir seria ainda pior. Eu ainda amo esse homem. Na verdade, sempre o amei. Mas tenho peso na consciência de saber que muita culpa de ele estar nessa situação é minha. Mas agora vejo, que como ele disse, não é tarde para termos outra chance. Porém temo que ele possa não sair dessa situação para me dar essa chance.”
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Meu filho me abraçou, enquanto eu chorava. Ele havia entendido. Viu que eu ainda amava aquele homem e que meu futuro que ainda restava era envelhecer ao lado dele, embora ele aparentasse ser uns 5 anos mais velhos (sendo que eu era 3 anos mais velha que ele). Ele me disse ao ouvido que onde quer que estivesse, o pai dele iria querer me ver sorrindo, e que se fosse com outro homem, que fosse alguém que ele conhecia e sabia que me amava. Naquele momento, alguns alunos dele entraram no quarto, para uma visita àquele que eles diziam ser seu professor favorito e um dos melhores que já tiveram. Eles não sabiam quem eu era, mas se surpreenderam quando beijei a boca daquele senhor em coma induzido enquanto derramava lágrimas. Juro que pude sentir um sorriso dele, como se soubesse e percebera tudo que passou-se ali. Mas se isso aconteceu, foi no interior de nossos corações. Algo me dizia que tudo ia ficar bem.
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Saí do quarto, deixando os perplexos alunos junto ao seu professor. Eu sabia que ele iria acordar em breve. Eu sentia isso. Afinal, ele precisa voltar a contar essa história a você, porque ninguém faz isso melhor do que ele.”
A perspectiva dela sobre uma vida ruim, Pt. 8
“Aquilo me deixou abalado, e me julgue como quiser, pode até dizer que agi errado, mas eu precisava me encontrar com ela e descobrir o que estava acontecendo. Ela mentiu pra mim, ela mesmo admitiu, mas por que cargas d’água ela faria isso? Bom, deixei passar dois dias pra minha cabeça esfriar, incrivelmente sóbrio, e fui ao hospital. Lá me disseram que ela havia mudado de local de trabalho. Fiquei apavorado de início, e tentei descobrir o endereço dela. Só me passaram porque disse que era paciente dela e precisava do acompanhamento. Devido minha ficha naquele local, não foi difícil que acreditassem. Lá estava eu então, batendo na porta do que seria a casa dela. Era grande, bela por fora, com cantos arredondados que eu jamais me arriscaria a fazer, muito complicado essas coisas. Na faixada um jardim com flores diversas e um caminho de pedra por entre as gramas que levava até uma porta que se abriu. Um homem, entre 30 ou 35 anos que me atendeu.
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- Olá, posso ajudar? - disse ele.
- Sua… mãe - disse na dúvida - está? Digo… a dona desta casa.
- Quem é você? - ele parecia intrigado, um pouco mais sério agora do que quando abriu a porta.
- Um paciente dela, preciso falar com ela.
- Você é aquele cara, não é? Você é quem apareceu e fez a cabeça dela girar e agora querer se mudar? O que mais quer de minha mãe? Acho melhor ir embora!
- Sua filha, como está? Está melhor?
- Ora, seu… Saia logo daqui antes que…
- Deixe disso, pode deixar que eu falo com ele. - ela então interrompeu aquela discussão.
- Ah, ai está você. Preciso falar com você.
- Tudo bem, entre. Filho, deixe-nos a sós em meu escritório.
- Tem certeza?
- Sim, vai ficar tudo bem.
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Ela então me levou até o que me pareceu mais um consultório particular. Havia alguns livros, todos de medicina, uma mesa num canto, próximo a tais livros, e no outro uma maca, típicas daquelas que há em consultórios nos hospitais. Ela sentou em uma pequena poltrona e fez sinal para que eu me sentasse na outra poltrona próxima à dela que formava o par de móveis. Ela quem quebrou o silêncio, de novo.
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- Seja breve, não prolongue mais essa conversa que não deveria nem acontecer.
- Prolongar? Mais? Depois de 35 anos não tem mais o que prolongar.
- Diga logo, sem ironia!
- Tá certo, não tem pra que criar lombadas se eu vou falar isso de qualquer jeito. Se quer saber…
- Não quero.
- … Como ia dizer, se que saber o que tenho pra dizer, é bem simples. Eu te amo.
- E como isso de repente?
- Você mandou eu ser breve, cortei todos os rodeios.
- Você sabe que eu também te amei. Muito, talvez hoje eu ainda te ame, mas não deveria, e não vá mudar nada se amo ou amei, agora já é tarde!
- Não, não é! Até mesmo eu que era incapaz de sorrir ainda acredito! Sei que já estamos velhos, que perdemos tempo demais e que não podemos fazer muita coisa que poderíamos ter feito antes, mas ainda dá para juntarmos nossas vidas novamente e esperar que a velhice nos alcance e nos traga o fim desse ciclo que, na minha opinião, ainda não se fechou!
- Já não tem como…
- Mas você mesmo disse que ainda pode ser que me ame! Algo ainda diz que dá pra tentarmos!
- Eu tenho uma família, não posso abandonar.
- Eu sei que ficaria difícil se separar agora, mas…
- Eu não tenho marido.
- Mas então, seu filho…
- O pai dele morreu, há 23 anos.
- Eu não sabia. Eu conhecia?
- Não importa.
- Era ele não?
- Isso muda alguma coisa?
- Muda tudo! Ele sempre se aproveitou de sua fragilidade, não por mal, mas ele te tirou de mim em um momento de fraqueza nosso! Aproveitou-se que tinha se distanciado de mim e de sua instabilidade emocional naquela época pra poder fazer você terminar tudo comigo e nunca mais termos nossa chance! - já estava gritando nessa hora.
- Você acha que é o dono da verdade, não é? - ela gritava também. - Pois então, Sr. Sabe-Tudo, fique sabendo que ele me deu o que você não me deu: atenção!
- Atenção? E o amor que eu te dei durante todos os dias, durante todos os momentos que tivemos? Disso você esqueceu na primeira vez que ele disse “Relaxa, vai passar”? TÍPICO DELE!
- Como se atreve a dizer isso?
- Ele teve o fim que mereceu afinal! Não que eu quisesse que ele morresse, mas depois de ter me matado naquele dia, nada mais justo não!? - já ia me levantando para sair.
- Você… - algumas lágrimas surgiam, era uma mistura de tristeza, raiva… culpa.
- Quer saber, eu acho mesmo é que eu te odeio!
- Não me amava até agora, hipócrita?
- E qual é a diferença, afinal?
- SAIA DAQUI!
- Não precisa pedir duas vezes.
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Sai daquele consultório com a cara bufando de raiva, as lágrimas escorrendo e a vontade de morrer no peito. Bem, na verdade, eu quase consegui. Dali o que aconteceu depois você já deve imaginar me conhecendo. Fui pra casa, me afoguei em whisky e tequila. Enquanto queimava fotos e terminava duas garrafas eu tive algum surto dentro de mim, como se meu corpo entendesse minha vontade e tentasse acabar com aquela vida que não tinha sentido há anos. Apaguei. Graças à empregada fui para na cama de um hospital. Na verdade, graças à ela não, por culpa dela. Eu não sabia na hora, mas sentada ao lado da minha cama, estava ela, mesmo depois de ouvir tudo o que ouvira antes. Por que? Acho que culpa, arrependimento, mas o mais provável é que ela queria se certificar de que iria mesmo morrer.”
Uma perspectiva não tão ruim sobre uma vida ruim pt. 7
“Como havia prometido a ela, na primeira tarde que estava fora do hospital fui busca-la no fim do expediente para termos um momento pra conversar. Depois que ela saiu do meu quarto não havia voltado. Seria então a primeira vez que veria ela depois de ter aceitado meu convite. Então parei o carro no estacionamento de frente com o hospital e fiquei esperando ela sair. Era uma noite de sexta feira, por volta das 19h e o sol já estava baixando, mas as luzes das ruas ainda não estavam acesas. Fiquei pensando primeiro em onde leva-la. Não tive nenhuma boa ideia, não conhecia muitos lugares que poderia leva-la sem me constranger por meus hábitos. Se é que você me entende. Então quando deu 19h20 as luzes da rua acenderam e ela saiu do hospital, toda arrumada e elegante, deduzi que tinha se aprontado lá dentro pois estava 50 min atrasada do seu fim de dia de trabalho.
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- Então por isso demorou, estava se arrumando. - puxei assunto.
- Que? Eu nem sabia que vinha… Não achei que estivesse falando sério.
- Claro, e por que ficou quase uma hora a mais lá dentro?
- … Emergência…
- Claro, chamaremos assim!
- Quanto sarcasmo pra uma pessoa só! Bem, como não sabia que viria não pensei em nenhum lugar pra ir. Pra onde vai me levar?
- Conheço um “pub” muito bom aqui perto - foi o primeiro lugar que pensei na hora.
- Pub?
- É, sabe como é, barzinho, estilo americano, música ao vivo… vai gostar, entra ai.
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Entramos no carro e fomos para o tal pub. Não trocamos muitas palavras no caminho. Ela apenas perguntou o nome do local e mais nada. Se bem que o caminho era curto e chegamos rápido, então sem muito tempo para conversas que nenhum dos dois sabiam como ter. Ao chegar escolhemos uma mesa na parte de dentro do salão e pedimos dois sucos, já que eu não podia beber.
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- Então - ela quebrou o silêncio - você já sabe o que faço da vida, mas não sei sobre o que tem feito.
- Virei professor.
- Era o que sempre quis não?
- Sim, mas até lá, fiz jornalismo, exerci a profissão por 15 anos enquanto me formava e fazia doutorado.
- Caramba, não foi só eu que mudei de rumo na vida.
- Não, não. Hoje leciono História na Federal.
- Se especializou em que?
- Revolução Industrial… História Britânica…
- Isso é muito manjado! - você tem que levar em consideração que o comentário dela veio cerca de 35 anos após o dia em que está lendo isso, afinal já deve ter percebido que estou lhe contando sobre o futuro, sobre uma perspectiva futura. - Ainda há o que se estudar sobre isso?
- Sempre há! O tempo é um vazio muito grande para nós que não estamos vivendo nele.
- Achei que Inglaterra e toda a modinha britânica tivesse passado.
- Os encantos dessa terra nunca se apaga.
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Continuei conversando com ela por um bom tempo. Foram algumas horas falando sobre besteiras de fato. Comentamos o que estava acontecendo no mundo, algumas noticias, filmes e um pouco sobre música. Quando a banda do pub começou a tocar um clássico. Tears in Heaven, do Eric Clapton. Muitas pessoas dançavam na pista do salão nesse momento.
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- Eu amo essa música! - disse ela, para a minha surpresa.
- Por que não a dançamos então? - foi algo que tomei muita coragem pra dizer, e o fiz tremendo!
- Sério? Acho que não conseguiria.
- Eu nem sei dançar também, além do que, tinha a impressão que deveríamos ter feito isso quando jovens.
- Eu não sei…
- Vamos, posso ter essa dança com você? - Já disse me levantando e estendendo a mão para que ela segurasse.
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Quando ela levantava para irmos à pista, o seu celular tocou. Ela fez uma expressão séria. “Sim… Não, pode falar… Quando?… Mas como ela tá?… Fica calmo, filho, eu tô indo pra sua casa agora”. Filho? Aquilo me pegou de surpresa e me fez tremer ainda mais e, como reação adversa, soltar a mão dela.
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- Desculpe, tenho que ir.
- Filho?
- Sim.
- Mas você disse que…
- Eu menti, me desculpe. Minha neta está passando mal e preciso ir.
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Ela saiu correndo e pegou um táxi na porta do salão. Me sentei sem saber o que pensar, enquanto a banda continuava a tocar e cantar. “Would you hold my hand, if I saw you in heaven?”
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- Você seguraria? - cochichei”
Uma perspectiva não tão ruim sobre uma vida ruim pt. 6
“Era numa tarde. “Isso dói, isso dói muito!”. Isso era tudo o que eu conseguia pensar naquele momento. Tudo estava doendo dentro de mim. Eu só lembro de estar em casa, notoriamente triste e, claro, bêbado. E então apaguei. Não sei como estava naquela maca dentro de um corredor de hospital. Era uma gritaria só. Não tava entendendo nada, exceto o fato de que o doente era eu. Mas que diabos eu tinha? Bom, quando finalmente entrei numa sala cheia de luzes fortes em meus olhos, pude reconhecer um rosto. E mal pude acreditar que ela estava ali, e seja lá o que eu tivesse, ela que poderia me salvar.
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Quando acordei, acredito eu que algumas horas, no máximo um dia, depois que eu cheguei, ela estava com uma prancheta, talvez com meus dados, problemas.
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- Pelo que vejo aqui, andou cuidando muito muito mal de sua saúde. - disse ela quando me viu acordando
- Puxa, se você não me falasse, não iria descobrir que venho fazendo coisas erradas. - respondi enquanto me levantava para sentar na cama.
- Conte-me o que teve pra vir para cá?
- Não lembro. Sei que depois que nos vimos, fui terminar de comprar o que eu tinha ido…
- Álcool? - ela me interrompeu
- Não, só…
- Jack Daniel’s não?
- Doze anos, clássico… enfim! Depois quando cheguei em casa comecei a beber como usualmente faço. Algumas horas depois estava tossindo e cuspindo meu fígado pela boca.
- Isso é ruim.
- Confesso que não foi uma das cenas mais agradáveis da minha vida. E você já sabe o que tenho? Cirrose mesmo?
- Esses exames ainda não ficaram prontos, mas acho que sim. Os outros que fiz já foram descartados.
- Eu tenho câncer?
- Não ainda.
- Diabetes?
- Não.
- AIDS?
- Mas que…
- Tenho?
- Não!
- Ufa. Então vamos. Médica hein? Não esperava. É bem diferente do que pretendia ser.
- Nem me fale. Muita coisa aconteceu, os rumos mudaram… Tive que tomar algumas decisões, nem todas eu me orgulho. Mas essa até que deu certo. Sou uma boa médica.
- Se estou vivo ainda, então é uma boa médica. Na verdade, com minha vida, não sei como não morri ainda.
- Sinceramente? Um pouco mais de um dia que eu te vejo, e eu também quero entender.
- Não fala assim, me comporto bem, só não tenho bons hábitos.
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Então alguém entrou e entregou uns papéis para ela. Ela leu, devolveu e pediu que fizessem cópias e registrassem. Deduzi que fossem os tais exames.
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- Então é cirrose?
- Não, não é. Seu fígado está de fato muito mal. Mas não é cirrose. Consequência da bebida, mas não é cirrose.
- Mas eu cuspi meu fígado!
- Aquilo não era fígado, seu dramático. Era resto do almoço. Você vomitou por causa da bebida. Coisa rara, não?
- Engraçadinha!
- Se você parar de beber, ao menos por um tempo, deve melhorar.
- Como se isso fosse possível!
- Tem que ser, ou algo pior acontecerá e eu não poderei ajudar.
- Preciso de outras coisas pra me ocuparem enquanto não bebo.
- Seja o que for, arrume logo.
- Bom, pra começar, que tal tomarmos um chá quando eu sair daqui.
- Eu odeio chás.
- Eu sei disso, por isso to chamando.
- Mas que…
- Já é a segunda vez que ia me responder assim. Um café, talvez?
- Posso pensar. Descase.
- Se negar, eu venho te atormentar até aceitar. Já sei onde te encontrar.
- Ah… que seja. Pode ser. Pelo seu tratamento. Quem sabe assim não toma jeito.
- Okay, te encontro na primeira noite que sair daqui!
- Certo. Descanse, vou indo agora. Mais tarde enfermeiras passaram se precisar de cuidados.
- … Hey!
- Mais alguma coisa?
- Eu não tenho AIDS mesmo?
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Ela riu e saiu.”
Uma perspectiva não tão ruim sobre uma vida ruim pt. 5
“- Ontem chorei pensando em você, enquanto ouvia Guns.
- Eu odeio Guns.
- Eu sei, mas as letras me lembram de você.
- E eu odeio isso.
- Aliás, a gente precisa conversar.
- Não. Você quer conversar, eu não vejo motivos.
- Exatamente por isso. Você parece que não liga mais pra nada. Aliás, estava a dias tentando falar com você. Você não me atende, não responde minhas mensagens, nem pela internet dá mais.
- Eu tive meus motivos.
- E eu tive os meus pra tentar falar com você! Desde seu aniversário que você está assim! Já faz alguns meses. Não tá na hora de tentarmos resolvermos isso, seja o que for?
- Ta vendo só? Você nem sabe o que estou passando!
- É lógico que sei! - pela primeira vez gritei com ela - Só não entendo porque está assim comigo!
- Melhor ficar sem entender, já não tem mais o que resolver. Muita coisa mudou em você sabe? Eu só tava querendo você do meu lado.
- E eu estive o máximo que pude. Todos nós sabemos que ainda há coisas que nos empatam, mas daí pra pensar que eu estou te deixando de lado? E o fato de eu correr atrás de você todos os dias?
- Isso não foi o suficiente.
- E se aproveitarem em quanto você está solitária é suficiente?
- Como… como pode!? - ela se levantou - Já chega, pra mim basta. Nunca mais me procure!
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E assim ela se foi. Foi quando terminamos, e deixamos de nos falar. E mais uma vez acordo no meio da noite sonhando com essa tarde sombria do meu passado.”
Uma perspectiva não tão ruim sobre uma vida ruim pt. -4

Pergunta feita por euseiamar: vê se não some, coisa linda ><

Pode deixar =D

Vocês vão pensar que eu sou um alcoólatra. Mas estava saindo pra comprar mais algumas garrafas pois as minhas acabaram. Costumo frequentar o mesmo lugar de sempre, onde os preços são bons e eu conheço o dono. Mas dessa vez foi diferente. No caminho da loja eu encontrei um rosto conhecido. Tinha traços familiares, mas com tons envelhecidos, nada que reduzisse a beleza. Era ela. Não restava duvidas. Mas o nervosismo me impediu de falar com ela. Decidi baixar a cabeça, fingir que não a vi e passar direto. Mas então ela me chamou. Meu coração quase pulou pela boca, e fingi ter dificuldades para reconhecer… bobagem! Depois de um abraço e palavras previsíveis acabamos indo tomar um café perto dali.
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- Você começou a tomar café? - ela perguntou.
- Claro que não, sabe que eu odeio. Vou querer um chá mate com limão.
- Eu odeio chá.
- Eu sei.
- Quanto tempo, não? Já faz anos!
- Eu diria décadas. Quase 30 anos.
- Passou muito rápido o tempo.
- Eu não acho. Cada dia foi eterno.
- Por que?
- Tive meus motivos, e não me orgulho de todos. Filhos? - mudei de assunto.
- Não…
- Trabalha?
- Sim…
- Sua família?
- Como sempre…
- Casada?
- … E sobre você?
- Respostas negativas pra todas as perguntas que fiz.
- Você sempre foi muito sarcástico.
- Não que seja esse o defeito que você encontrou em mim.
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Não nos prendemos muito nesse assunto. Senti que nenhum dos dois gostaria das respostas. No fundo não queria que ela tivesse se casado, mas sei que ela estava casada, e provavelmente com ele. Eu comecei a lembrar da nossa época, onde tudo dava certo, nada era esquisito assim, e muito menos frio. Passou-se bem uma hora e ela disse que precisava ir. Paguei a conta enquanto ela juntava algumas sacolas que trazia com ela. Um aperto de mão frio selou o adeus. Senti como se não fosse mais a ver depois desse. No ultimo momento me virei e a chamei de volta, ela parou e se virou para olhar para mim.

- E como você está? - questionei
- Indo.
- A gente não conseguiu fazer tudo ficar bem pra cada um né?
- É difícil sozinha, até algum dia.

Uma perspectiva não tão ruim sobre uma vida ruim pt. 3
“As vezes me pergunto por que invento de dizer as coisas que eu penso. Sabe, já faz tempo que não sou ouvido, e já não sei como funciona a comunicação entre pessoas. Depois de tanto tempo a vida tem sido só trabalho, e quando resolvi me abrir, parece que nada deu certo. Sim, realmente eu percebi que ainda há algum motivo pra tentar seguir em frente, mas parece tão impossível. Eu sabia que tinha fotos dela salvas ou guardadas em algum canto. Passei alguns dias seguidos procurando por elas. Finalmente encontrei. Pude rever seus olhos mais uma vez, enxerguei um sorriso que costumava ver todos os dias, mas que não sei mais se continua o mesmo. Isso faz dois dias. Depois que achei e ressenti memórias e sentimentos, me afoguei na bebida. Apaguei. Acordei hoje, com fome, dor de cabeça, e a pior sensação do mundo: Saudades. Pela primeira vez o meu parceiro Jack Daniel’s me deixou pior do que antes de tomá-lo. Tem tanta coisa que precisa ser dita, tanta coisa que não foi esquecida. Me lembro de coisas que talvez você nem se quer possa imaginar. E garanto, se você pudesse me ouvir agora, eu diria que ainda te amo. Como um velho dito conhecido dizia: Te amar sempre foi tão fácil para mim. Em contrapartida deixar de te amar é impossível.”
Uma perspectiva não tão ruim sobre uma vida ruim pt. 2

(Fonte: mistinesse)

(Fonte: h-e-r-o-i-n)

“Hoje está uma noite quente, mas a chuva lá fora ameaça cair em breve. Estou aqui sentado em minha sala com minha dose de whisky com gelo. Me sinto tão cansado quanto todos os dias. Falta de folego causada por vários cigarros durante anos é só mais um dos problemas causados pelo stress do dia-a-dia, assim como minha fiel dor de cabeça que me acompanha até agora. Já faz tempo desde que me fechei, resolvi mudar e deixar de amar. Muito mais tempo ainda que deixei de ser amado. Não culpo ninguém, afinal gostar de alguém frio e insensível como eu não é facil. Passo então os dias no consolo de um maço de cigarro, uma garrafa de Jack Daniel’s e na companhia de algumas prostitutas. E apesar de tudo ainda lembro da última vez que quis amar. Fico pensando em como ela está, o que anda fazendo, se tem emprego, onde mora… será que se casou? Posso imaginar algumas dessas respostas. E posso imaginar também como seria encontrá-la. Ela diria que sentiu minha falta, mesmo sem lembrar de mim antes. Diria que sentia saudades da época em que éramos amigos, e o que mais tenho certeza: todos os erros teriam se repitido. Ela teria ficado e casado com o cara errado, e eu… bom, meu erro seria que mesmo depois de me tornar incapaz de amar até o mais fofo dos cachorrinhos, iria me apaixonar por ela novamente. Aliás, algum dia eu deixei de ama-la? Pensando bem, acho que não sou tão insensível assim, já que lembro das sensações de gostar dela… Agora está fazendo mais sentido… Acho que vou parar de fumar antes que seja tarde de mais.”
Uma perspectiva não tão ruim sobre uma vida ruim.

(Fonte: withdecorum)